21 de agosto de 2014

A ABA DO CHAPÉU



No rodeio o peão passa a cavalo
Olhos nos olhos da prenda
O peão olha a prenda
A prenda olha o peão
Ele sabe que ela olha para ele
Ela sabe que ele olha na direção dela
Mas não tem certeza se ele olha para ela
Os raios de sol batem no chapéu
A aba faz sombra bem nos olhos dele
Ela não sabe se olhos dele estão nos olhos dela

No bolicho, o paysano chega para o jogo do osso
Pede uma canha para lavar a goela
A bolicheira lhe serve. Um olhar
Ele sabe que ela olha os olhos dele
Ela não sabe se o olhar dele é para ela
O ambiente não é muito claro
Os lampiões pendurados altos nos caibros
Não alumiam o suficiente
A aba do chapéu encobre os olhos dele
Ela não sabe se olhos dele estão nos olhos dela

No rancho de chão batido
Um baile de gaita e pandeiro
A prenda passa dançando
E bombeando o cantador
O cantador que floreia o pala
Com um olhar traiçoeiro
Os olhos dele encontram os negros olhos dela
À meia luz do candeeiro os olhares se cruzam
Mas a aba do chapéu faz uma sombra
Que tapa exatamente os olhos dele
Ele sabe que a ela dança sem tirar os olhos dele
Ela não sabe exatamente
Onde está, o olhar do cantador

Sim a aba do chapéu atrapalha
Mas forma uma bela composição




Na indumentária do peão
Assim, a mulher gaúcha aprende a voltear esse empecilho
Pois, bem no fundo de sua alma e coração
Ela sabe que mesmo com a aba do chapéu fazendo sombra
Os olhos dele encontram os olhos dela
Ela sabe que aquele olhar
Camuflado na sombra é para ela

O coração bate mais forte
E passeia altiva pelo rodeio
E serve a canha serena lá no bolicho
E dança graciosa pelo salão, uma volta inteira na sala
Na espera de passar novamente em frente ao cantador
Olhos nos olhos por alguns instantes
E mais uma longa e demorada volta pela sala

Quem nunca segredou um namoro assim?
Pealando um olhar desgarrado
Um olhar que pode ser o começo
De um namoro de verdade
Ou um namoro que aconteceu
Somente nos olhares trocados
Um namoro que nasceu e morreu no olhar

Um namoro em segredo
Talvez os namorados nunca tenham se tocado
Talvez nem saibam o nome um do outro
Mas namoraram, naquela tarde, naquela noite
Naquele rodeio ou naquele baile
Somente com o olhar, revelando o desejo
Fazendo promessas... juras de amor
Para um dia, um talvez, bem distante...
Somente no olhar, por debaixo da aba do chapéu.

Alva Gonçalves

 Achei esse texto poético nos meus arquivos guardados, que já nem lembrava que havia escrito, nem tenho ideia de quando escrevi, mas quis postar.
Postar um comentário