29 de agosto de 2012

Decoração "O Lugar Ideal - Martha Medeiros"


O lugar ideal

Coisa de um mês atrás participei de um programa de televisão 1que discutia qual seria o lugar dos sonhos, a Pasárgada de cada um. Paris? Um chalé nas montanhas? Um loft no Village, em Nova York? Vamos descer das tamancas. O melhor lugar do mundo é a casa da gente, mesmo com aquela infiltração no banheiro.
            A casa da gente não precisa ser necessariamente uma casa. Pode ser um barco, como o que foi adotado pela família Schürmann. Pode ser o apartamento da mãe, preferência nacional dos recém divorciados. Pode até ser um trailer estacionado no deserto. O importante é que caibam nossos filhos, nossa intimidade e nossa fantasia, que merece seu espaço.
            Ainda não fui visitar a Casa Cor desse ano, mas pretendo. Independente de ser uma exposição comercial, que gera negócios entre arquitetos, decoradores e lojiostas, a CasaCor estimula os visitantes a verem suas casas não como quartéis-generais feitos para dormir e dar plantão, mas como locais idílicos, cenários de felicidade doméstica. É claro que não vamos colocar um computador em cada aposento, não vamos comprar todos aqueles objetos de arte nem equipar nossa cozinha com o melhor da tecnologia alemã, até porque nossa verba é nacional. Não é essa a proposta. A CasaCor funciona como os desfiles de moda das grandes grifes. Ninguém precisa usar o veatido transparente que foi mostrado na passarela: o que se quer é apenas transmitir prazer e liberdade. É inspirar uma sofisticação que cada um, na vida real, traduzirá do seu jeito.
            Bastam uma mesa, quatro cadeiras, um sofá, cama e armários para mobiliar uma casa. É verdade. Mas é preciso um pouco de alma se quisermos esquentar o ambiente. Livros, plantas, retratos, panos, tapetes, abajures, gravuras, velas, música, janelas, almofadas. Sim. Alma se compra, e não sai tão caro.
            Pasárgada é uma casa que dê vontade de voltar ao fim de um dia estafante. Pasárgada é uma casa silenciosa quando queremos meditar, barulhenta quando queremos receber os amigos, uma casa que reconheça a nossa voz. Pasárgada é uma casa que respire, que tenha cheiro de comida, cheiro de flor, cheiro de banho tomado. Pasárgada é uma casa que o telefone não toque tanto, que Chet Baker toque muito. Pasárgada é uma casa onde cada objeto tenha uma origem, onde nada seja gratuito. Pasárgada pode ser em Roma ou São Sepé, num barco ou em terra firme, mas tem que ter a cara da gente, tem que acolher nossos defeitos e virtudes. E ser ainda melhor que a CasaCor, menos perfeita, mas cheia de pó e história.

Setembro 1998.

Extraído do Livro “Trem Bala” de Martha Medeiros



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