31 de julho de 2011

Será mesmo cafona a toalhinha de crochê?

Essa semana fazendo a revisão geral da minha casa pude reparar como a gente guarda tralha. Muitas coisas foram para o lixo, outras tantas para doação, algumas para serem consertadas e voltarmos a utilizá-las e ainda tenho uma caixa cheia de coisas “a classificar” onde eu e meu marido temos que revisar e ver o que vamos fazer com elas, sem contar a papelada que ainda nem comecei a mexer. To achando que essa revisão geral vai ser mais demorada do que eu pensava!
Mas nessa bagunça toda que fica a casa da gente quando resolvemos tirar as “cobras e lagartos” de dentro dos armários, encontrei coisas que por mais que todas digam que é pra descartar logo ou que não devo usar, eu insisto em não jogar fora.
São velhas lembranças, aliás uma caixa cheia delas, convites, cartões, cartas, diários e agendas antigas, revistas da época da adolescência, entre um monte de bugigangada que não ouso por fora. Além de tudo isso existem, ainda, as excomungadas toalhinhas de crochê, que todo decorador, arquiteto e  pessoas do ramos (sem coração, diga-se de passagem) insistem em dizer que cafonas.
  Eu tenho muitas delas, toalhinhas bordadas com crochê ao redor, toalhinhas de crochê com linha mercê, aquela fininha que o trabalho não rende, toalhinhas de tecido com motivos natalinos ou de cozinha, e até aquelas xadrez bem antiguinhas.
  São dos mais variados modelos e tamanhos e apesar de eu gostar muito de decoração, (leio revistas, vejo sites quase que diariamente) eu não abro mão de expor minhas toalhinhas, na cozinha, na sala no quarto, meus móveis tem toalhinhas sim... oras vou deixar um trabalho artesanal  tão lindo escondido, socado dentro do armário porque alguém disse que é cafona, “mas credo” sinto muito mas vou usar e quem não quiser gostar que não goste.

E acabou que hoje recebi um e-mail com um texto de autoria do Carlos Drummond de Andrade, intitulado “Casa Arrumada” e ele fala muita coisa boa e verdadeira com as quais me identifiquei muito mas quando ele diz: “Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela.” quando ele diz isso eu respiro aliviada, pois enfim não estou sozinha com minhas manias de ter uma casa que seja funcional e aconchegante e que tenha cara de casa de verdade não que pareça as das revistas, porque afinal na hora da foto a casa, é lógico, está linda e cheirosa mas o dia a dia não é bem assim não.
Viva meus bloquinhos de anotação, meu sofá cheio de fiapos que também é arranhador de gatos, o fogão com algumas gordurinhas nos botões e claro as toalhinhas de crochê (que numa próxima oportunidade posto algumas fotos).

 Segue abaixo o texto de Drummond:


Casa Arrumada
Corrigindo: de onde copiei esse texto a autoria era atribuída à Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), porém recentemente descobri que a autora é Lena Gino.


Casa arrumada é assim:
Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz.
Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um
cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os
móveis, afofando as almofadas...
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:
Aqui tem vida...
Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras
e os enfeites brincam de trocar de lugar.
Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições
fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.


Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo?
Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante,
passaporte e vela de aniversário, tudo junto...
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.
A que está sempre pronta pros amigos, filhos...
Netos, pros vizinhos...
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca
ou namora a qualquer hora do dia.


Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.
Arrume a sua casa todos os dias...
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela...
E reconhecer nela o seu lugar.


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